Apresentação do livro “Livro Imperfeito”, de António Paiva, na FNAC, em Leiria
Quando o António me convidou a estar presente na apresentação do seu “Livro Imperfeito”, editado sob a chancela das Edições Ecopy, e para, sobre ele, tecer algumas palavras, todo o meu semblante se agitou, pela enorme alegria que o veio interiorizar.
O António Paiva é uma pessoa muito especial e se contemplarmos o seu olhar, quando olhos nos olhos, isso somos levados a concluir.
Para além dessa opinião, que é minha, há que referenciar a sua superior capacidade de se envolver com as palavras, traçando-nos dos mais belos textos, por onde os sentimentos abundam. O António é um excelente poeta, mas também um escritor nato, e isso regista-se nesta sua obra “Livro Imperfeito”onde o autor nos vai confrontando com as suas experiências, suas vivências e a sua observação na vida, em geral.
Neste livro ele traz-nos lugares míticos, como Coimbra, por exemplo. Não a actual Coimbra, mas a cidade da sua juventude, e o seu cheiro, que ainda lhe permanece nas memórias.
Também nos faz descobrir o mar, e as águas desse oceano, que rodeia o lugar que é hoje o seu poiso mais presente, a Madeira.
No assumido papel de narrador nos delícia no seu inteligente poder de contar e assim nos fazer sonhar e/ou despertar, conforme as questões que vai abordando paralelamente às histórias contidas nesta obra.
Mas não só!
Esta obra é um manancial de relações, sob o contexto humano, pela perspectiva da alusão variada do espaço natureza, pelas múltiplas referências do quotidiano, da sua vida, e de tantas outras vidas, mas sobretudo no valor da sua interacção com as palavras. Desde pormenores da sua juventude até aos inacabados tempos.
Quando, na minha juventude, se verificava que alguém tinha imenso jeito para jogar à bola, pela forma como driblava e adornava, entusiasticamente, o esférico, dizia-se que tratava a bola por tu. Ora é isso mesmo, aquilo, que António Paiva faz com as palavras: Trata-as por tu.
O António, na página 44 do seu livro, refere-nos que “Só não viaja quem se resigna a não fazer mais do que cumprir deveres”. É o apelo ao continuar e à perseverança, no sentido de se alcançar tudo aquilo a que cada um tem direito. Pode não conseguir-se, mas nunca se deve desistir.
Neste “Livro Imperfeito”, onde o autor desenvolve a ideia que o leitor o poderá continuar a escrever, porque inacabado, mais significado tem a sua enorme capacidade criativa na escrita. E a conclusão que retiro da sua leitura, e de tudo o que dele vou relendo, é: Este livro é mais que perfeito, é perfeitíssimo.
Segundo o autor (página 63) “A realidade pode perturbar o sonhador, mas o contrário não é menos verdade”, ora este pensamento mais nos enquadra no alinhamento das nossas opiniões, e às vezes os extremos tocam-se e dá-se o embate, a trepidação e a efervescência. No entanto se em tudo conciliarmos a verdade temos sempre a ganhar, não deixando, nunca, de sonhar. E para que tal aconteça, muitas vezes, é necessário que esse embater suceda para o conseguirmos ultrapassar, no bom sentido.
Também com esta sua obra sonhamos, ao lê-la, e nesse contínuo imaginar registamos as melhores imagens. Contudo esse registo não se faz, só, de referenciais belos, mas da verdade que nos envolve dia-a-dia. Daí a sua constante análise (como chamada de atenção) sobre as decisões dos manobradores desta gigantesca bola em que vivemos, o planeta Terra, usurpando-nos, bastas vezes, de conseguirmos os nossos ideais e em muitas situações nos remeterem à elementar insignificância, sem possibilidade de qualquer tipo de fuga ou crítica.
É pelo autor referido (página 54) que “O ser humano não acredita no que lhe é dito pela força”. Poderá não acreditar, mas quase sempre se deixa submeter a esse desiderato ou, num contexto contrário, se sujeita ao acomodamento pelas mansas palavras com que, muitas vezes, o fazem resignar.
O factor social está, sempre, intrínseco aos seus textos e nessa envolvência cito o seu discernir da mesma página, “Se as árvores quisessem vingavam-se em forma de pau.”. Esta expressão criada pelo António Paiva, extremamente metaforizada, tem um cariz psicológico relevantíssimo e uma perspicaz análise social.
O autor faz a alusão de um caricato caso (entre as páginas 91 e 92), do qual passo a enunciar um excerto: “…Depois há o absurdo, o ridículo, a insanidade latente que alastra. Precisamente hoje, no dia em que registo estas palavras, na Índia um tribunal está a julgar um cão por ter mordido dezenas de pessoas. Parece anedota, mas lamentavelmente não é. Ainda admito que o cão possa ter cometido o erro; o ter mordido as pessoas erradas.
Nota do jornalista; o cão manteve-se calmo perante o juiz, não emitiu um único latido. A minha nota; cão inteligente. Usou do seu legítimo direito de não prestar declarações. Mesmo assim, sou levado a pensar que o cão é muito mais inteligente do que eu imagino. Provavelmente adoptou uma postura de desprezo perante tão vergonhoso simulacro de hipocrisia e ignorância humana.
O Homem tem nojo da sua porcaria,
Mas não consegue viver longe dela.”
É ímpar o conteúdo deste livro que nos remete para um contagiante gosto de permanecer entre ele, e com ele. Isto, apesar do autor referir que, nos tempos de o escrever, alguns dias houve que se tornaram bastante produtivos e outros onde o seu esmorecimento se intensificou, tal como a sua própria vontade. Esses são os desígnios de quem escreve e, sobretudo, de quem é humano.
O que importa, fundamentalmente, é que o António sabe recriar sobremaneira os seus produtivos dias e naqueles em que se encontra mais por baixo consegue filtrar, qualitativamente, as suas melhores palavras.
E é assim que nascem e vivem, permanecendo eternamente entre os leitores, as excelentes obras literárias, como é o caso deste “Livro Imperfeito”.
Eu poderia continuar a dissertar sobre este binómio autor/obra, que muito ficaria, ainda, por dizer. Mas uma coisa é verdade, é um prazer enorme acompanhá-lo em parte deste seu percurso, ao vivo. Aliás, é uma honra.
E enalteço o seu carácter humano registando o excerto seguinte, inserido na página 65:
“…_ As pessoas andam mesmo tão estranhas…
- Sabes; vejo fome na cara das pessoas.
- Sei! A fome vai para além da falta de alimentos, a fome a cada dia que passa é muito mais do que dor física. É mágoa. Solidão. Tédio. Sensação de impotência. Morte por desistência.”…
António, foi com especial envolvimento e enorme felicidade que pude interagir com esta tua obra e com a tua pessoa, enquanto autor, que muito admiro e estimo (tal como acontece com o Homem), podendo disso dar conta, publicamente.
Agradeço-te teres permitido caminhar, um pouco, com este teu livro e desejo que possa usufruir do percurso a que, realmente, tem direito, o de ser continuadamente descoberto, manuseado e lido.
A todos vós, os leitores, endereço-vos um simples conselho: Comprem o “Livro Imperfeito”, de António Paiva, ele merece servir-vos de companhia e fazer parte das vossas leituras.
E concluo com algo que o autor escreve, dizendo, pela página 94: “…Sou um sem-vergonha intelectual, sem que me incomode de o ser, sempre que me apetece alinho as palavras, como quem alinha flores em canteiros.”
Ninguém é perfeito.
Meu abraço,amigo António Paiva.
António MR Martins
FNAC, em Leiria, 2010.06.05
Quando o António me convidou a estar presente na apresentação do seu “Livro Imperfeito”, editado sob a chancela das Edições Ecopy, e para, sobre ele, tecer algumas palavras, todo o meu semblante se agitou, pela enorme alegria que o veio interiorizar.
O António Paiva é uma pessoa muito especial e se contemplarmos o seu olhar, quando olhos nos olhos, isso somos levados a concluir.
Para além dessa opinião, que é minha, há que referenciar a sua superior capacidade de se envolver com as palavras, traçando-nos dos mais belos textos, por onde os sentimentos abundam. O António é um excelente poeta, mas também um escritor nato, e isso regista-se nesta sua obra “Livro Imperfeito”onde o autor nos vai confrontando com as suas experiências, suas vivências e a sua observação na vida, em geral.
Neste livro ele traz-nos lugares míticos, como Coimbra, por exemplo. Não a actual Coimbra, mas a cidade da sua juventude, e o seu cheiro, que ainda lhe permanece nas memórias.
Também nos faz descobrir o mar, e as águas desse oceano, que rodeia o lugar que é hoje o seu poiso mais presente, a Madeira.
No assumido papel de narrador nos delícia no seu inteligente poder de contar e assim nos fazer sonhar e/ou despertar, conforme as questões que vai abordando paralelamente às histórias contidas nesta obra.
Mas não só!
Esta obra é um manancial de relações, sob o contexto humano, pela perspectiva da alusão variada do espaço natureza, pelas múltiplas referências do quotidiano, da sua vida, e de tantas outras vidas, mas sobretudo no valor da sua interacção com as palavras. Desde pormenores da sua juventude até aos inacabados tempos.
Quando, na minha juventude, se verificava que alguém tinha imenso jeito para jogar à bola, pela forma como driblava e adornava, entusiasticamente, o esférico, dizia-se que tratava a bola por tu. Ora é isso mesmo, aquilo, que António Paiva faz com as palavras: Trata-as por tu.
O António, na página 44 do seu livro, refere-nos que “Só não viaja quem se resigna a não fazer mais do que cumprir deveres”. É o apelo ao continuar e à perseverança, no sentido de se alcançar tudo aquilo a que cada um tem direito. Pode não conseguir-se, mas nunca se deve desistir.
Neste “Livro Imperfeito”, onde o autor desenvolve a ideia que o leitor o poderá continuar a escrever, porque inacabado, mais significado tem a sua enorme capacidade criativa na escrita. E a conclusão que retiro da sua leitura, e de tudo o que dele vou relendo, é: Este livro é mais que perfeito, é perfeitíssimo.
Segundo o autor (página 63) “A realidade pode perturbar o sonhador, mas o contrário não é menos verdade”, ora este pensamento mais nos enquadra no alinhamento das nossas opiniões, e às vezes os extremos tocam-se e dá-se o embate, a trepidação e a efervescência. No entanto se em tudo conciliarmos a verdade temos sempre a ganhar, não deixando, nunca, de sonhar. E para que tal aconteça, muitas vezes, é necessário que esse embater suceda para o conseguirmos ultrapassar, no bom sentido.
Também com esta sua obra sonhamos, ao lê-la, e nesse contínuo imaginar registamos as melhores imagens. Contudo esse registo não se faz, só, de referenciais belos, mas da verdade que nos envolve dia-a-dia. Daí a sua constante análise (como chamada de atenção) sobre as decisões dos manobradores desta gigantesca bola em que vivemos, o planeta Terra, usurpando-nos, bastas vezes, de conseguirmos os nossos ideais e em muitas situações nos remeterem à elementar insignificância, sem possibilidade de qualquer tipo de fuga ou crítica.
É pelo autor referido (página 54) que “O ser humano não acredita no que lhe é dito pela força”. Poderá não acreditar, mas quase sempre se deixa submeter a esse desiderato ou, num contexto contrário, se sujeita ao acomodamento pelas mansas palavras com que, muitas vezes, o fazem resignar.
O factor social está, sempre, intrínseco aos seus textos e nessa envolvência cito o seu discernir da mesma página, “Se as árvores quisessem vingavam-se em forma de pau.”. Esta expressão criada pelo António Paiva, extremamente metaforizada, tem um cariz psicológico relevantíssimo e uma perspicaz análise social.
O autor faz a alusão de um caricato caso (entre as páginas 91 e 92), do qual passo a enunciar um excerto: “…Depois há o absurdo, o ridículo, a insanidade latente que alastra. Precisamente hoje, no dia em que registo estas palavras, na Índia um tribunal está a julgar um cão por ter mordido dezenas de pessoas. Parece anedota, mas lamentavelmente não é. Ainda admito que o cão possa ter cometido o erro; o ter mordido as pessoas erradas.
Nota do jornalista; o cão manteve-se calmo perante o juiz, não emitiu um único latido. A minha nota; cão inteligente. Usou do seu legítimo direito de não prestar declarações. Mesmo assim, sou levado a pensar que o cão é muito mais inteligente do que eu imagino. Provavelmente adoptou uma postura de desprezo perante tão vergonhoso simulacro de hipocrisia e ignorância humana.
O Homem tem nojo da sua porcaria,
Mas não consegue viver longe dela.”
É ímpar o conteúdo deste livro que nos remete para um contagiante gosto de permanecer entre ele, e com ele. Isto, apesar do autor referir que, nos tempos de o escrever, alguns dias houve que se tornaram bastante produtivos e outros onde o seu esmorecimento se intensificou, tal como a sua própria vontade. Esses são os desígnios de quem escreve e, sobretudo, de quem é humano.
O que importa, fundamentalmente, é que o António sabe recriar sobremaneira os seus produtivos dias e naqueles em que se encontra mais por baixo consegue filtrar, qualitativamente, as suas melhores palavras.
E é assim que nascem e vivem, permanecendo eternamente entre os leitores, as excelentes obras literárias, como é o caso deste “Livro Imperfeito”.
Eu poderia continuar a dissertar sobre este binómio autor/obra, que muito ficaria, ainda, por dizer. Mas uma coisa é verdade, é um prazer enorme acompanhá-lo em parte deste seu percurso, ao vivo. Aliás, é uma honra.
E enalteço o seu carácter humano registando o excerto seguinte, inserido na página 65:
“…_ As pessoas andam mesmo tão estranhas…
- Sabes; vejo fome na cara das pessoas.
- Sei! A fome vai para além da falta de alimentos, a fome a cada dia que passa é muito mais do que dor física. É mágoa. Solidão. Tédio. Sensação de impotência. Morte por desistência.”…
António, foi com especial envolvimento e enorme felicidade que pude interagir com esta tua obra e com a tua pessoa, enquanto autor, que muito admiro e estimo (tal como acontece com o Homem), podendo disso dar conta, publicamente.
Agradeço-te teres permitido caminhar, um pouco, com este teu livro e desejo que possa usufruir do percurso a que, realmente, tem direito, o de ser continuadamente descoberto, manuseado e lido.
A todos vós, os leitores, endereço-vos um simples conselho: Comprem o “Livro Imperfeito”, de António Paiva, ele merece servir-vos de companhia e fazer parte das vossas leituras.
E concluo com algo que o autor escreve, dizendo, pela página 94: “…Sou um sem-vergonha intelectual, sem que me incomode de o ser, sempre que me apetece alinho as palavras, como quem alinha flores em canteiros.”
Ninguém é perfeito.
Meu abraço,amigo António Paiva.
António MR Martins
FNAC, em Leiria, 2010.06.05
Olá caríssimo amigo António
Quero que saibas que depois de ter lido e relido “por obrigação” o teu novo livro, voltei a ele porque de facto tem passagens de autêntica genialidade, e se é verdade que tudo o que disse publicamente correspondeu ao meu pensar, (até porque não tenho feitio, nem tempo, para fazer fretes) quero agora dizer-te por escrito, porque sei que este dizer pessoalmente, é mais verdadeiro que outro qualquer.
Sim, pela tua escrita e apenas pela tua escrita, tu mereces saber que lendo Pedaços de Vida e Fantasia, passeei por serras, montes e vales com o mesmo prazer com que o fiz na companhia de Miguel Torga, Alves Redol ou Soeiro Pereira Gomes.
Chapinhei nos poços, ribeiras, rios e acabei atirando-me ao mar, o mesmo mar que tu retratas de uma maneira fantástica, com essa visão genuína de uma criança, como as ondas que nunca acabam e são todas diferentes uma das outras, lembrando-me dessa divina poetisa dos mares que se chamou Sophia de Mello Breyner Andersen, ou de Ítalo Calvino que tão genialmente retratou uma onda.
Não pastoreei cabras nem ovelhas, nunca tive um palmo de terra para plantar o que quer que fosse mas lendo-te, lembrei-me do brilhante poeta guardador de cabras António Aleixo que deu muitas lições de mestre, mas nenhuma como a lição de engenharia agrícola para colher belas e grandes batatas com que nos bafejas neste livro.
Digo-te todas estas coisas, porque conversando contigo, às vezes fico com a sensação que não tens a verdadeira noção da valia literária e até técnica que está escondida por trás de toda a tua sensibilidade e simplicidade, precisamente pela forma simples com que nos brindas e delicias nestes Pedaços de Vida e Fantasia, ora filosofando, ora romanceando, ora com rasgos da mais pura, sensual e bela poesia, ora com sábios questionamentos e quantas lições de vida.
Sabes que mais; se toda a gente de repente, utilizasse um dos meus critérios para comprar livros, que consiste em abrir ao acaso em duas ou três páginas e daí tirar o retrato do todo, então o teu livro esgotar-se-ia em pouco tempo e em breve estaria em todos os top’s dos livros mais vendidos.
Não posso ter na minha cabeceira todos os livros que gosto, mas de vez em quando alguns têm o privilégio de lá ficar e este, vai lá ficar por mais um tempo, quem sabe, aguardando o próximo.
Aquele abraço
Policarpo Nóbrega
Funchal 28 de Maio de 2009
Quero que saibas que depois de ter lido e relido “por obrigação” o teu novo livro, voltei a ele porque de facto tem passagens de autêntica genialidade, e se é verdade que tudo o que disse publicamente correspondeu ao meu pensar, (até porque não tenho feitio, nem tempo, para fazer fretes) quero agora dizer-te por escrito, porque sei que este dizer pessoalmente, é mais verdadeiro que outro qualquer.
Sim, pela tua escrita e apenas pela tua escrita, tu mereces saber que lendo Pedaços de Vida e Fantasia, passeei por serras, montes e vales com o mesmo prazer com que o fiz na companhia de Miguel Torga, Alves Redol ou Soeiro Pereira Gomes.
Chapinhei nos poços, ribeiras, rios e acabei atirando-me ao mar, o mesmo mar que tu retratas de uma maneira fantástica, com essa visão genuína de uma criança, como as ondas que nunca acabam e são todas diferentes uma das outras, lembrando-me dessa divina poetisa dos mares que se chamou Sophia de Mello Breyner Andersen, ou de Ítalo Calvino que tão genialmente retratou uma onda.
Não pastoreei cabras nem ovelhas, nunca tive um palmo de terra para plantar o que quer que fosse mas lendo-te, lembrei-me do brilhante poeta guardador de cabras António Aleixo que deu muitas lições de mestre, mas nenhuma como a lição de engenharia agrícola para colher belas e grandes batatas com que nos bafejas neste livro.
Digo-te todas estas coisas, porque conversando contigo, às vezes fico com a sensação que não tens a verdadeira noção da valia literária e até técnica que está escondida por trás de toda a tua sensibilidade e simplicidade, precisamente pela forma simples com que nos brindas e delicias nestes Pedaços de Vida e Fantasia, ora filosofando, ora romanceando, ora com rasgos da mais pura, sensual e bela poesia, ora com sábios questionamentos e quantas lições de vida.
Sabes que mais; se toda a gente de repente, utilizasse um dos meus critérios para comprar livros, que consiste em abrir ao acaso em duas ou três páginas e daí tirar o retrato do todo, então o teu livro esgotar-se-ia em pouco tempo e em breve estaria em todos os top’s dos livros mais vendidos.
Não posso ter na minha cabeceira todos os livros que gosto, mas de vez em quando alguns têm o privilégio de lá ficar e este, vai lá ficar por mais um tempo, quem sabe, aguardando o próximo.
Aquele abraço
Policarpo Nóbrega
Funchal 28 de Maio de 2009
[O Autor]
“Um dia, não sei bem ainda por que razão, comecei por JUNTAR LETRAS e nasceu um livro, depois o vírus instalou-se e de algum modo abri uma pequena JANELA DO PENSAMENTO, surgiu um novo livro,
como a tendência de um vírus a alastrar-se, a paixão levou-me NAVEGANDO NAS PALAVRAS, um outro livro aconteceu. Agora ando por aqui de mãos dadas com elas, viajando entre PEDAÇOS DE VIDA E FANTASIA; logo se verá o que acontece.”
É assim que o autor, António Paiva, 50 anos, natural de Vila Nova de Poiares, distrito de Coimbra, apresenta a sua obra em “Pedaços de vida e fantasia”, referindo-se aos livros que já publicou:
• Juntando as Letras, poemas, 2006 - às Aldeias de Crianças SOS
• Janela do Pensamento, uma compilação de poemas e prosa poética, 2007 - Acreditar - Núcleo Regional da Madeira
• Navegando nas Palavras, um outro livro de poemas e prosa poética, 2007 – Ajuda de Berço
e…
um livro colectivo (11 escritores)
"Leituras Soltas", 2008 - A totalidade das receitas da venda deste livro, foram entregues à AMI e ao Rotary Club do Funchal.
Do Tó, sabemos pouco. Como o próprio refere, “Quase todos os que me partilham no dia-a-dia acham que me conhecem. Mas não. Talvez a casca.”
O que dele sei, não me foi referido pelo próprio… No entanto, descobri-lhe algumas características recorrentes, desde que dele se fala como poeta-escritor, e que posso sintetizar em 4 grandes categorias:
1. É um autor solidário;
2. é um autor premiado;
3. é um autor que adora partilhar o prazer da palavra com crianças e jovens
4. e é um autor com alma de poeta.
• Sabemos que a sua obra tem a preocupação de uma solidariedade genuína, fazendo da escrita um acto de intervenção social. Para o Tó, escrever é viver e ele vive agindo… denunciando os males que afectam o mundo actual, quase que vestindo a pele de um arauto da justiça social. No entanto, para além da sua preocupação literária em denunciar e induzir a reflexão sobre estas temáticas, existe uma outra preocupação, mais terrena, de contribuir, através da sua escrita, para a melhoria das condições de vida de instituições como As Aldeias de Crianças SOS, o Núcleo Regional da Acreditar da Madeira, a Ajuda de Berço, a AMI e o Rotary Club do Funchal, que têm vindo a beneficiar de contribuições monetárias por cada livro seu vendido.
Estas instituições estar-lhe-ão, seguramente, agradecidas por todos os contributos materiais e imateriais com que tem vindo a colaborar para a prossecução dos seus objectivos.
• Sabemos, igualmente, que, em Dezembro de 2007, O Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais lhe conferiu o Diploma de Honra e Mérito;
• Sabemos que adora partilhar o prazer das palavras com crianças e jovens. É um assíduo frequentador de escolas, tanto na Madeira como no Continente. Acredita que se pode induzir o gosto pela escrita e pela leitura. Eu também!
E se apresentar um livro é a maior honra que um amigo nos pode dar e que quero publicamente agradecer, pensei que a melhor forma de retribuir o tanto que tem feito pelos jovens fosse solicitar, precisamente, a 2 jovens que me ajudassem nesta apresentação. O Filipe, meu filho, está aqui porque aceitou o desafio de dar voz às tuas palavras, hoje, nesta sessão. E mais tarde, ele e o seu amigo Vítor Hugo vão oferecer-te uma surpresa.
• Por último, sabemos que o Tó tem alma de poeta desde tenra idade… “Pedaços de Vida e Fantasia” é a sua primeira obra em prosa, talvez ponto de partida para uma escrita mais corrida, mas, como refere Vítor Cintra, autor do prefácio desta obra, “em prosa a poesia é igualmente sedutora”. … A sua escrita vai sempre deixar navegar as palavras, deixá-las voar e separar-se em letras que se reunirão, de novo, de uma forma mágica e bela, como só um poeta sabe… é que, como ele próprio me confidenciou, é incapaz de uma escrita mais crua.
[A obra]
Devolvendo-nos emoções já amornadas pelo tempo, o autor desafia-nos, em “Pedaços de Vida e Fantasia”, a fazer uso dos cinco sentidos, numa viagem em que nos conduz:
• A revisitar infâncias e adolescências,
• A saborear a mágica sensualidade das ondas do mar,
• A sofrer as ilusões e desilusões da idade adulta… do despontar e fenecer e renascer dos sonhos,
• A esboçar um esgar de escárnio pelos “Machos, pois então” que se vão cruzando nos nossos caminhos,
• À raiva por haver histórias como as da “Mulher que contava as lágrimas”, Esmeralda de seu nome, uma das crónicas mais belas que li nos últimos tempos, reflexo de uma sociedade que pune duplamente, e que ceifa sonhos de vidas que nunca o chegam a ser.
Por não poder, hoje, falar-vos de toda a obra, escolhi alguns momentos da mesma… uns porque me fizeram ficar a conhecer melhor o autor e as suas motivações para a escrita, outros porque simplesmente não podemos fingir que não estão lá, e somos compelidos, pela força desta prosa poética, a partilhá-los, para que mais consciências acordem do torpor indiferente em que se encontram.
[INFÂNCIA / ADOLESCÊNCIA]
Em “Lugares de outros tempos”, uma das crónicas da obra, percebemos que o contacto com o campo na sua infância determina a visão que dele nos dá. Ao contrário de outros poetas, o campo não tem para ele um aspecto idílico, paradisíaco, bucólico, susceptível de devaneio poético, representando antes um espaço real, concreto, autêntico, que lhe confere liberdade e lhe potencia a criatividade. O campo é descrito como um espaço de vitalidade, alegria, beleza, vida saudável que lhe permitiu semear as suas primeiras batatas, plantar as suas primeiras árvores, e fazer as suas primeiras leituras e, com elas, as suas primeiras viagens. “Viajava nas páginas daqueles preciosos companheiros” - afinal, livros são viagens e a escrita, as palavras, podem conter em si todo o mundo.
E é assim, desde tenra idade, que nasce o seu amor às palavras, à escrita, aos livros.
Em “Aromas e caminhos” refere: “Nessa altura, sem saber, já eu transportava debaixo do braço um maço de crónicas por escrever. Quem sabe eu já não as escrevia nas folhas do meu imaginário”.
O mar que viu pela primeira vez aos 12 anos, exerceu também uma forte influência na sua vida e na sua escrita “Aquilo era tanto. Um miúdo da serra sentia-se filho do mar”.
O mar está associado a muitas das suas “Memórias vivas”. Memórias de amor, de paixão, carregadas de um erotismo quente embalado pelo “Sabor das marés”. Memórias adolescentes de luares do verão… os 4 elementos da natureza a pulsar, vibrantes… Terra, Água, Fogo e Ar em antíteses intimistas que nos fazem idealizar caminhos perfeitos... “Soubesse eu incendiar marés e chorar lava sem secar o tempo. Ficaria aceso na tua noite o tempo todo. Nos teus olhos nasceriam campos de trigo. Onde tu me colherias grão a grão. Matando a tua fome de mim. Aconchegando o celeiro do teu corpo.”
[CRÍTICA/INTERVENÇÃO SOCIAL]
“Desabafos duma consciência genuinamente inconformada” - Vítor Cintra, Prefácio
Em “Carácter” refere “A nossa carência de afectos torna-nos muito permeáveis. Isso é um facto. Há quem seja especialista em tirar partido disso. Daí corrermos o risco permanente de emprenhar pelos ouvidos. Ficamos tão grávidos que na maioria dos casos desatamos a parir disparates às ninhadas. Fazemo-lo como se trouxéssemos à luz do dia razões carregadas de ciência exacta. Mas na verdade apenas parimos gritos gordos e primários.”
E mais à frente, em “Hoje não quero que chorem”, “É um mundo contraditório, eu sei. Carregado de barbaridades, mal civilizado, erradamente decifrado. Uma mistura de absurdo e magia. Torres de cimento, maquilhadas como meretrizes, no mais luxuoso bordel. Confortáveis cavernas à beira de tudo. Tantas aldeias prostradas pelo caos, varandas e janelas abandonadas. Onde já não importam os ferrolhos e as cancelas, tudo é prisão de fantasmas, vidas de cães abandonados.” (…) “O mundo tem de acordar, tem de se preocupar, antes que morra. Vamos! Hoje não quero que chorem.”
[A ESCRITA COMO MODO DE VIDA]
Para o autor, as palavras, a escrita, podem conter em si todo o mundo… Livros são viagens, a escrita é uma forma de amor, um espaço de afirmação, da razão da sua existência, um espaço de liberdade a fazer lembrar o saudoso Agostinho da Silva (1906-1994) que a apresentava como a mais importante qualidade do ser humano.
Em “O caçador de palavras” refere “Este jogo do peso das palavras, esta interpelação de mim e dos outros, onde nada é definitivo. Haverá sempre quem saiba recomeçar. Uma vida não se justifica pela justificação dos actos, tão-pouco dos factos. Um processo de aprendizagem permanente, onde as palavras se defendem do orgulho. Nos extremos, a dor coabita com elas e com a vida. Às vezes nada as distingue do silêncio, são apenas uma forma de o suavizar. Nelas respiro e me abrigo: as minhas mãos movem-se obedecendo ao meu pensamento, pela força das palavras. Convém lembrar que um coração tem duas faces, é a morada perfeita para a inspiração de um caçador de palavras.
(…)
Voa, desejo! Voa, querer! Voa que és livre!”
Em “De mim para mim” confessa-se um homem não imune às ilusões, aos sonhos que confessa serem tão vulgares como os de qualquer pessoa, e que o fazem, por vezes, expiar culpas. No entanto, “… quando consigo levar o meu pensamento até ao mais profundo da minha essência, eu e as palavras ganhamos um novo brilho. Sinto-me mais aliviado e menos sombrio. Reconheço que são instantes privilegiados a confirmar o essencial da vida.”
[Ser Poeta]
E depois, a imodéstia. Afinal, o poeta está acima dos mortais… “Não peço que me entendam, nem eu próprio o consigo”, afirma em “Crónica de todos os dias”, insinuando o desconforto do espaço que habita. A dicotomia Deus/Homem…, com o poeta a ansiar a imortalidade através da escrita, e o homem a aspirar ao reconhecimento pelos afectos terrenos. Na sua última crónica desta obra, que intitulou de “Um livro”, revela a arrogância característica do ser poético. “Quem escreve e publica é uma espécie de cobarde que arranjou coragem sabe-se lá onde para o fazer. Os outros também o são, mas só conseguem arranjar coragem para escrever e falar daquilo que os outros fazem. Só que raramente são justos, imparciais e sensatos”.
e por fim, em jeito de auto-retrato
“Polémico, provocador, recipiente carregado de acidez, às vezes muito corrosiva, eu sei que sou. Mas de vez em quando também consigo ser coisas um pouco melhores”.
António Paiva, nascido a 21 de Março, de 1959, em Santo André, Vila Nova de Poiares, distrito de Coimbra. Poeta, Escritor… esta homenagem é para ti!
Paula Trigo
Funchal 9 de Maio 2009
“Um dia, não sei bem ainda por que razão, comecei por JUNTAR LETRAS e nasceu um livro, depois o vírus instalou-se e de algum modo abri uma pequena JANELA DO PENSAMENTO, surgiu um novo livro,
como a tendência de um vírus a alastrar-se, a paixão levou-me NAVEGANDO NAS PALAVRAS, um outro livro aconteceu. Agora ando por aqui de mãos dadas com elas, viajando entre PEDAÇOS DE VIDA E FANTASIA; logo se verá o que acontece.”
É assim que o autor, António Paiva, 50 anos, natural de Vila Nova de Poiares, distrito de Coimbra, apresenta a sua obra em “Pedaços de vida e fantasia”, referindo-se aos livros que já publicou:
• Juntando as Letras, poemas, 2006 - às Aldeias de Crianças SOS
• Janela do Pensamento, uma compilação de poemas e prosa poética, 2007 - Acreditar - Núcleo Regional da Madeira
• Navegando nas Palavras, um outro livro de poemas e prosa poética, 2007 – Ajuda de Berço
e…
um livro colectivo (11 escritores)
"Leituras Soltas", 2008 - A totalidade das receitas da venda deste livro, foram entregues à AMI e ao Rotary Club do Funchal.
Do Tó, sabemos pouco. Como o próprio refere, “Quase todos os que me partilham no dia-a-dia acham que me conhecem. Mas não. Talvez a casca.”
O que dele sei, não me foi referido pelo próprio… No entanto, descobri-lhe algumas características recorrentes, desde que dele se fala como poeta-escritor, e que posso sintetizar em 4 grandes categorias:
1. É um autor solidário;
2. é um autor premiado;
3. é um autor que adora partilhar o prazer da palavra com crianças e jovens
4. e é um autor com alma de poeta.
• Sabemos que a sua obra tem a preocupação de uma solidariedade genuína, fazendo da escrita um acto de intervenção social. Para o Tó, escrever é viver e ele vive agindo… denunciando os males que afectam o mundo actual, quase que vestindo a pele de um arauto da justiça social. No entanto, para além da sua preocupação literária em denunciar e induzir a reflexão sobre estas temáticas, existe uma outra preocupação, mais terrena, de contribuir, através da sua escrita, para a melhoria das condições de vida de instituições como As Aldeias de Crianças SOS, o Núcleo Regional da Acreditar da Madeira, a Ajuda de Berço, a AMI e o Rotary Club do Funchal, que têm vindo a beneficiar de contribuições monetárias por cada livro seu vendido.
Estas instituições estar-lhe-ão, seguramente, agradecidas por todos os contributos materiais e imateriais com que tem vindo a colaborar para a prossecução dos seus objectivos.
• Sabemos, igualmente, que, em Dezembro de 2007, O Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais lhe conferiu o Diploma de Honra e Mérito;
• Sabemos que adora partilhar o prazer das palavras com crianças e jovens. É um assíduo frequentador de escolas, tanto na Madeira como no Continente. Acredita que se pode induzir o gosto pela escrita e pela leitura. Eu também!
E se apresentar um livro é a maior honra que um amigo nos pode dar e que quero publicamente agradecer, pensei que a melhor forma de retribuir o tanto que tem feito pelos jovens fosse solicitar, precisamente, a 2 jovens que me ajudassem nesta apresentação. O Filipe, meu filho, está aqui porque aceitou o desafio de dar voz às tuas palavras, hoje, nesta sessão. E mais tarde, ele e o seu amigo Vítor Hugo vão oferecer-te uma surpresa.
• Por último, sabemos que o Tó tem alma de poeta desde tenra idade… “Pedaços de Vida e Fantasia” é a sua primeira obra em prosa, talvez ponto de partida para uma escrita mais corrida, mas, como refere Vítor Cintra, autor do prefácio desta obra, “em prosa a poesia é igualmente sedutora”. … A sua escrita vai sempre deixar navegar as palavras, deixá-las voar e separar-se em letras que se reunirão, de novo, de uma forma mágica e bela, como só um poeta sabe… é que, como ele próprio me confidenciou, é incapaz de uma escrita mais crua.
[A obra]
Devolvendo-nos emoções já amornadas pelo tempo, o autor desafia-nos, em “Pedaços de Vida e Fantasia”, a fazer uso dos cinco sentidos, numa viagem em que nos conduz:
• A revisitar infâncias e adolescências,
• A saborear a mágica sensualidade das ondas do mar,
• A sofrer as ilusões e desilusões da idade adulta… do despontar e fenecer e renascer dos sonhos,
• A esboçar um esgar de escárnio pelos “Machos, pois então” que se vão cruzando nos nossos caminhos,
• À raiva por haver histórias como as da “Mulher que contava as lágrimas”, Esmeralda de seu nome, uma das crónicas mais belas que li nos últimos tempos, reflexo de uma sociedade que pune duplamente, e que ceifa sonhos de vidas que nunca o chegam a ser.
Por não poder, hoje, falar-vos de toda a obra, escolhi alguns momentos da mesma… uns porque me fizeram ficar a conhecer melhor o autor e as suas motivações para a escrita, outros porque simplesmente não podemos fingir que não estão lá, e somos compelidos, pela força desta prosa poética, a partilhá-los, para que mais consciências acordem do torpor indiferente em que se encontram.
[INFÂNCIA / ADOLESCÊNCIA]
Em “Lugares de outros tempos”, uma das crónicas da obra, percebemos que o contacto com o campo na sua infância determina a visão que dele nos dá. Ao contrário de outros poetas, o campo não tem para ele um aspecto idílico, paradisíaco, bucólico, susceptível de devaneio poético, representando antes um espaço real, concreto, autêntico, que lhe confere liberdade e lhe potencia a criatividade. O campo é descrito como um espaço de vitalidade, alegria, beleza, vida saudável que lhe permitiu semear as suas primeiras batatas, plantar as suas primeiras árvores, e fazer as suas primeiras leituras e, com elas, as suas primeiras viagens. “Viajava nas páginas daqueles preciosos companheiros” - afinal, livros são viagens e a escrita, as palavras, podem conter em si todo o mundo.
E é assim, desde tenra idade, que nasce o seu amor às palavras, à escrita, aos livros.
Em “Aromas e caminhos” refere: “Nessa altura, sem saber, já eu transportava debaixo do braço um maço de crónicas por escrever. Quem sabe eu já não as escrevia nas folhas do meu imaginário”.
O mar que viu pela primeira vez aos 12 anos, exerceu também uma forte influência na sua vida e na sua escrita “Aquilo era tanto. Um miúdo da serra sentia-se filho do mar”.
O mar está associado a muitas das suas “Memórias vivas”. Memórias de amor, de paixão, carregadas de um erotismo quente embalado pelo “Sabor das marés”. Memórias adolescentes de luares do verão… os 4 elementos da natureza a pulsar, vibrantes… Terra, Água, Fogo e Ar em antíteses intimistas que nos fazem idealizar caminhos perfeitos... “Soubesse eu incendiar marés e chorar lava sem secar o tempo. Ficaria aceso na tua noite o tempo todo. Nos teus olhos nasceriam campos de trigo. Onde tu me colherias grão a grão. Matando a tua fome de mim. Aconchegando o celeiro do teu corpo.”
[CRÍTICA/INTERVENÇÃO SOCIAL]
“Desabafos duma consciência genuinamente inconformada” - Vítor Cintra, Prefácio
Em “Carácter” refere “A nossa carência de afectos torna-nos muito permeáveis. Isso é um facto. Há quem seja especialista em tirar partido disso. Daí corrermos o risco permanente de emprenhar pelos ouvidos. Ficamos tão grávidos que na maioria dos casos desatamos a parir disparates às ninhadas. Fazemo-lo como se trouxéssemos à luz do dia razões carregadas de ciência exacta. Mas na verdade apenas parimos gritos gordos e primários.”
E mais à frente, em “Hoje não quero que chorem”, “É um mundo contraditório, eu sei. Carregado de barbaridades, mal civilizado, erradamente decifrado. Uma mistura de absurdo e magia. Torres de cimento, maquilhadas como meretrizes, no mais luxuoso bordel. Confortáveis cavernas à beira de tudo. Tantas aldeias prostradas pelo caos, varandas e janelas abandonadas. Onde já não importam os ferrolhos e as cancelas, tudo é prisão de fantasmas, vidas de cães abandonados.” (…) “O mundo tem de acordar, tem de se preocupar, antes que morra. Vamos! Hoje não quero que chorem.”
[A ESCRITA COMO MODO DE VIDA]
Para o autor, as palavras, a escrita, podem conter em si todo o mundo… Livros são viagens, a escrita é uma forma de amor, um espaço de afirmação, da razão da sua existência, um espaço de liberdade a fazer lembrar o saudoso Agostinho da Silva (1906-1994) que a apresentava como a mais importante qualidade do ser humano.
Em “O caçador de palavras” refere “Este jogo do peso das palavras, esta interpelação de mim e dos outros, onde nada é definitivo. Haverá sempre quem saiba recomeçar. Uma vida não se justifica pela justificação dos actos, tão-pouco dos factos. Um processo de aprendizagem permanente, onde as palavras se defendem do orgulho. Nos extremos, a dor coabita com elas e com a vida. Às vezes nada as distingue do silêncio, são apenas uma forma de o suavizar. Nelas respiro e me abrigo: as minhas mãos movem-se obedecendo ao meu pensamento, pela força das palavras. Convém lembrar que um coração tem duas faces, é a morada perfeita para a inspiração de um caçador de palavras.
(…)
Voa, desejo! Voa, querer! Voa que és livre!”
Em “De mim para mim” confessa-se um homem não imune às ilusões, aos sonhos que confessa serem tão vulgares como os de qualquer pessoa, e que o fazem, por vezes, expiar culpas. No entanto, “… quando consigo levar o meu pensamento até ao mais profundo da minha essência, eu e as palavras ganhamos um novo brilho. Sinto-me mais aliviado e menos sombrio. Reconheço que são instantes privilegiados a confirmar o essencial da vida.”
[Ser Poeta]
E depois, a imodéstia. Afinal, o poeta está acima dos mortais… “Não peço que me entendam, nem eu próprio o consigo”, afirma em “Crónica de todos os dias”, insinuando o desconforto do espaço que habita. A dicotomia Deus/Homem…, com o poeta a ansiar a imortalidade através da escrita, e o homem a aspirar ao reconhecimento pelos afectos terrenos. Na sua última crónica desta obra, que intitulou de “Um livro”, revela a arrogância característica do ser poético. “Quem escreve e publica é uma espécie de cobarde que arranjou coragem sabe-se lá onde para o fazer. Os outros também o são, mas só conseguem arranjar coragem para escrever e falar daquilo que os outros fazem. Só que raramente são justos, imparciais e sensatos”.
e por fim, em jeito de auto-retrato
“Polémico, provocador, recipiente carregado de acidez, às vezes muito corrosiva, eu sei que sou. Mas de vez em quando também consigo ser coisas um pouco melhores”.
António Paiva, nascido a 21 de Março, de 1959, em Santo André, Vila Nova de Poiares, distrito de Coimbra. Poeta, Escritor… esta homenagem é para ti!
Paula Trigo
Funchal 9 de Maio 2009
Alguém disse um dia, "os homens não se medem aos palmos"... e ontem confirmei-o in loco. O homem que ali estava à minha frente, de corpo franzino e olhar penetrante, era o mesmo que semanas antes havia reencontrado no norte e com quem tinha trocado meia dúzia de palavras numa conversa de ocasião. Tanto nessa como em qualquer outra, o meu orgulho cresceu por me sentir tão perto de alguém assim, com um tamanho desproporcional entre o ser e o parecer. E quem tiver ainda alguma dúvida, pegue num livro seu, pode ser mesmo neste ultimo, baptizado com o nome de "Pedaços de Vida e Fantasia" e comece a lê-lo devagarinho... " Dentro de mim às vezes também se está bem, é por isso que muitas vezes saio e volto a entrar. Poiso o rosto no lugar do costume, penduro o corpo para não o amarrotar. Os olhos. Os olhos, esses adormecem."... são palavras do poeta que se despe assim perante o leitor, envolvendo-o num ambiente único, onde apetece ficar e ir lendo e degustando cada instante de tão agradável paladar, tal como o vinho que nos foi oferecido no fim, qual cereja em cima de tão apetitoso bolo!
Arrisco a dizer em nome de todos os que estiveram presentes, que o motivo que nos levou ali, aquele local numa tarde solarenga de feriado, seria o mesmo de sempre... mas acima de tudo, a amizade e a poesia.
Lurdes Dias
Lisboa 2 de Maio de 2009
Arrisco a dizer em nome de todos os que estiveram presentes, que o motivo que nos levou ali, aquele local numa tarde solarenga de feriado, seria o mesmo de sempre... mas acima de tudo, a amizade e a poesia.
Lurdes Dias
Lisboa 2 de Maio de 2009
“Pedaços de Vida e Fantasia”
Há momentos assim, em que o amor pelas palavras fala mais alto. Sentimos, deste jeito, este seu manto de “pedaços de vida e fantasia” ...
Segredos que connosco partilha, quando o peso das palavras é enorme e soltá-las é ao mesmo tempo, um castigo e um desejo.
A memória essa, é como o próprio nos confidencia, o seu “maior destino”.
Voltando a “ lugares de outros tempos”, a foz do seu imaginário, estendia-se lá longe, onde o Mondego abraça o mar imenso. Aí, o sonho de menino, no desejo puro de criança, extasiado se perdia ao sabor do vaivém das ondas, que um dia sonhava conhecer.
Envolvido pelo cheiro do sol e das amoras, palmilhava os caminhos da sua aldeia, entre os aromas que serviam de fonte de inspiração ao mundo de palavras que já na altura teimava em guardar no seu imaginário.
Mas o menino cresceu e deixou para trás o aroma de montes e vales, partindo à descoberta de outras terras, que os seus “companheiros”, lhe davam a conhecer, através de cada parágrafo e de cada página, que lia e relia vezes sem conta, cada uma delas como se fosse a primeira vez ...
Lá longe rodeado pelo imenso mar que o inspira, cujas águas surgem ora revoltas ora tranquilas, vai “juntando as letras” unindo as memórias com o presente, despindo-se dessa forma de murmúrios e protestos, onde a dor ironiza os sonhos outrora bordados em mantos de azul ...
Ansiando por cânticos sedutores deixa que a paixão o contagie adivinhando um novo amor entre rosas e frutos de dúbio sabor. Jardineiro do seu próprio recanto, aprimora o amor por entre os espinhos, confidenciando em páginas prateadas, momentos e retalhos de cúmplices vidas.
A sua caminhada faz-se descobrindo auroras de incerteza entre o silêncio da noite que ainda repousa e a frescura da manhã que promete um novo dia. Aí se debate na utopia que teima em o perseguir. É aí que busca o alimento para materializar a ideia em palavras, concebendo um poema, uma frase ou um simples pensamento.
Quando sente nas suas palavras controvérsia e azedia, esforça-se por as fazer repousar na alma até que outras envoltas em paz e tranquilidade as substituam. E quando isso acontece, na sua essência, as palavras ganham um novo colorido.
... ainda que envolvidas pela sua particular irreverência!
É assim tudo o que cria : um misto de paixão, de dor, de ilusão, de erros e sabedoria, de combates com algumas vitórias e outras tantas derrotas, de queixumes e alegrias, assim é o António que na prosa que apresenta nos deleita com a sua melhor poesia.
Paula Cação
Coimbra, 2 de Maio de 2009
*****
Foi uma honra muito grande poder partilhar contigo este momento. Amigo, mereces muito mais do que estas palavras, mas que as mesmas sirvam para te demonstrar a admiração que sinto por ti. E que continues, como tens feito, a trilhar os caminhos que te levam à realização do teu mais belo sonho.
Até sempre.
Há momentos assim, em que o amor pelas palavras fala mais alto. Sentimos, deste jeito, este seu manto de “pedaços de vida e fantasia” ...
Segredos que connosco partilha, quando o peso das palavras é enorme e soltá-las é ao mesmo tempo, um castigo e um desejo.
A memória essa, é como o próprio nos confidencia, o seu “maior destino”.
Voltando a “ lugares de outros tempos”, a foz do seu imaginário, estendia-se lá longe, onde o Mondego abraça o mar imenso. Aí, o sonho de menino, no desejo puro de criança, extasiado se perdia ao sabor do vaivém das ondas, que um dia sonhava conhecer.
Envolvido pelo cheiro do sol e das amoras, palmilhava os caminhos da sua aldeia, entre os aromas que serviam de fonte de inspiração ao mundo de palavras que já na altura teimava em guardar no seu imaginário.
Mas o menino cresceu e deixou para trás o aroma de montes e vales, partindo à descoberta de outras terras, que os seus “companheiros”, lhe davam a conhecer, através de cada parágrafo e de cada página, que lia e relia vezes sem conta, cada uma delas como se fosse a primeira vez ...
Lá longe rodeado pelo imenso mar que o inspira, cujas águas surgem ora revoltas ora tranquilas, vai “juntando as letras” unindo as memórias com o presente, despindo-se dessa forma de murmúrios e protestos, onde a dor ironiza os sonhos outrora bordados em mantos de azul ...
Ansiando por cânticos sedutores deixa que a paixão o contagie adivinhando um novo amor entre rosas e frutos de dúbio sabor. Jardineiro do seu próprio recanto, aprimora o amor por entre os espinhos, confidenciando em páginas prateadas, momentos e retalhos de cúmplices vidas.
A sua caminhada faz-se descobrindo auroras de incerteza entre o silêncio da noite que ainda repousa e a frescura da manhã que promete um novo dia. Aí se debate na utopia que teima em o perseguir. É aí que busca o alimento para materializar a ideia em palavras, concebendo um poema, uma frase ou um simples pensamento.
Quando sente nas suas palavras controvérsia e azedia, esforça-se por as fazer repousar na alma até que outras envoltas em paz e tranquilidade as substituam. E quando isso acontece, na sua essência, as palavras ganham um novo colorido.
... ainda que envolvidas pela sua particular irreverência!
É assim tudo o que cria : um misto de paixão, de dor, de ilusão, de erros e sabedoria, de combates com algumas vitórias e outras tantas derrotas, de queixumes e alegrias, assim é o António que na prosa que apresenta nos deleita com a sua melhor poesia.
Paula Cação
Coimbra, 2 de Maio de 2009
*****
Foi uma honra muito grande poder partilhar contigo este momento. Amigo, mereces muito mais do que estas palavras, mas que as mesmas sirvam para te demonstrar a admiração que sinto por ti. E que continues, como tens feito, a trilhar os caminhos que te levam à realização do teu mais belo sonho.
Até sempre.
“Ainda ninguém disse claramente qual o caminho a seguir na encruzilhada da existência. Escrever pode não ser a resposta aceitável, mas é, pelo menos, mais um caminho”.
Acordar, despertar, contemplar, sentir, brotar, emergir, despontar, espelhar, elevar-se.
São estes os verbos que melhor associam António Paiva ao dom da palavra escrita. Se acordou tarde para a publicação dos seus textos, o seu primeiro livro só nos foi dado a conhecer em finais de Agosto de 2006, despertou cedo para a essência de que é feita a alma de um poeta, o Amor.
O Amor por tudo aquilo que pode ser contemplado, revela-se na sua expressão poética onde faz brotar palavras de rara sensibilidade que emergem em frases de verdadeira beleza.
“pendurado nas tranças do luar. esperou-a até ao amanhecer. (…)
“e quando as palavras
bebem no limbo, a sede morre”
Metáforas que despontam em riqueza de grande estilo literário.
Nasceu em Santo André, Vila Nova de Poiares, uma Vila situada entre a Serra da Lousã e o Rio Mondego. Cresceu na aldeia de Travasso, Concelho de Penacova. Uma aldeia isolada na época. A estrada que a servia terminava nela própria, sem ligação à sede do Concelho. Por lá estudou e pastoreou até à idade de 18 anos….
“de uvas, sabes que gosto
das maçãs guardas as sementes
as manhãs acordam orvalhadas
trazes-me sorridente o Outono num cesto”
“Dizem os especialistas que as palavras continuam a nascer nos campos, sendo essa a razão de elas serem verdes.”
“ Eu, jardineiro, aqueço um beijo num raio de luz do sol do amor partilhado e planto-o em ti.”
...a partir daí foi para a cidade de Coimbra, onde prosseguiu estudos e iniciou a sua vida profissional. No ano de 2000 decidiu rumar à bela ilha da Madeira, onde reside actualmente.
“Na ilha o ninho de aromas florescendo. o rosto permanece imóvel. aguarda serenamente o beijo da maresia. imutável o segredo dos lábios. na noite voz rouca de tanto querer. clama exausta o libertar do amanhecer.”
“os meus ouvidos são búzios
onde o mar esconde o rumor das suas ondas”
“o meu corpo mede o nível das águas”
E é nessa dualidade mar-terra, que se espelham as suas emoções:
“Soubesse eu incendiar marés e chorar lava sem secar o tempo. Ficaria acesso na tua noite o tempo todo. Nos teus olhos nasceriam campos de trigo. Onde tu me colherias grão a grão. Matando a tua fome de mim. Aconchegando o celeiro do teu corpo.”
“Juntando as Letras”, “Janela do Pensamento”, “Navegando nas Palavras”, “Pedaços de Vida e Fantasia”. De Agosto de 2006 a Abril de 2009, um tempo breve mas não tardio para nos abrir à sua escrita.
Também um poeta de causas. Os seus livros angariam fundos para instituições que apoiam e acolhem crianças carenciadas e em risco – Aldeias de Crianças SOS de Portugal, Acreditar - Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro, Núcleo Regional da Madeira e Ajuda de Berço, AMI e Rotary Club do Funchal.
O autor conta já com um considerável número de escolas visitadas, no Continente e na Ilha da Madeira. Fomentar o gosto pela leitura e pela escrita, junto dos mais jovens, têm-lhe proporcionado dos mais gratificantes momentos na sua vida, quer como homem, quer como escritor.
Foi, pois, neste sentido e dizendo sim a uma solicitação por nós feita, que visitou a nossa Biblioteca no passado dia 29 de Abril, onde se fez ouvir e respondeu às questões colocadas pelos alunos e professores presentes no “Encontro com o Escritor”.
O nosso muito sincero Obrigado!
António Paiva eleva-se, assim, ao grupo dos escolhidos pela sua inspiração poética que nos arrebata para um mundo de puro sentido estético, onde a organização das palavras com os sentimentos domina a escrita e nos escraviza pelo poder dos seus textos.
in O Sabichão
Blogue da Biblioteca da Escola EB 2,3 de Vilarinho do Bairro.
5 de Maio de 2009
Do livro, Pedaços de Vida e Fantasia
Acordar, despertar, contemplar, sentir, brotar, emergir, despontar, espelhar, elevar-se.
São estes os verbos que melhor associam António Paiva ao dom da palavra escrita. Se acordou tarde para a publicação dos seus textos, o seu primeiro livro só nos foi dado a conhecer em finais de Agosto de 2006, despertou cedo para a essência de que é feita a alma de um poeta, o Amor.
O Amor por tudo aquilo que pode ser contemplado, revela-se na sua expressão poética onde faz brotar palavras de rara sensibilidade que emergem em frases de verdadeira beleza.
“pendurado nas tranças do luar. esperou-a até ao amanhecer. (…)
Do livro, Janela do Pensamento
“e quando as palavras
bebem no limbo, a sede morre”
Do livro, Navegando nas Palavras
Metáforas que despontam em riqueza de grande estilo literário.
Nasceu em Santo André, Vila Nova de Poiares, uma Vila situada entre a Serra da Lousã e o Rio Mondego. Cresceu na aldeia de Travasso, Concelho de Penacova. Uma aldeia isolada na época. A estrada que a servia terminava nela própria, sem ligação à sede do Concelho. Por lá estudou e pastoreou até à idade de 18 anos….
“de uvas, sabes que gosto
das maçãs guardas as sementes
as manhãs acordam orvalhadas
trazes-me sorridente o Outono num cesto”
Do livro, Navegando nas Palavras
“Dizem os especialistas que as palavras continuam a nascer nos campos, sendo essa a razão de elas serem verdes.”
“ Eu, jardineiro, aqueço um beijo num raio de luz do sol do amor partilhado e planto-o em ti.”
Do livro, Pedaços de Vida e Fantasia
...a partir daí foi para a cidade de Coimbra, onde prosseguiu estudos e iniciou a sua vida profissional. No ano de 2000 decidiu rumar à bela ilha da Madeira, onde reside actualmente.
“Na ilha o ninho de aromas florescendo. o rosto permanece imóvel. aguarda serenamente o beijo da maresia. imutável o segredo dos lábios. na noite voz rouca de tanto querer. clama exausta o libertar do amanhecer.”
Do livro, Janela do Pensamento
“os meus ouvidos são búzios
onde o mar esconde o rumor das suas ondas”
Do livro, Navegando nas Palavras
“o meu corpo mede o nível das águas”
Do livro, Pedaços de Vida e Fantasia
E é nessa dualidade mar-terra, que se espelham as suas emoções:
“Soubesse eu incendiar marés e chorar lava sem secar o tempo. Ficaria acesso na tua noite o tempo todo. Nos teus olhos nasceriam campos de trigo. Onde tu me colherias grão a grão. Matando a tua fome de mim. Aconchegando o celeiro do teu corpo.”
Do livro, Pedaços de Vida e Fantasia
“Juntando as Letras”, “Janela do Pensamento”, “Navegando nas Palavras”, “Pedaços de Vida e Fantasia”. De Agosto de 2006 a Abril de 2009, um tempo breve mas não tardio para nos abrir à sua escrita.
Também um poeta de causas. Os seus livros angariam fundos para instituições que apoiam e acolhem crianças carenciadas e em risco – Aldeias de Crianças SOS de Portugal, Acreditar - Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro, Núcleo Regional da Madeira e Ajuda de Berço, AMI e Rotary Club do Funchal.
O autor conta já com um considerável número de escolas visitadas, no Continente e na Ilha da Madeira. Fomentar o gosto pela leitura e pela escrita, junto dos mais jovens, têm-lhe proporcionado dos mais gratificantes momentos na sua vida, quer como homem, quer como escritor.
Foi, pois, neste sentido e dizendo sim a uma solicitação por nós feita, que visitou a nossa Biblioteca no passado dia 29 de Abril, onde se fez ouvir e respondeu às questões colocadas pelos alunos e professores presentes no “Encontro com o Escritor”.
O nosso muito sincero Obrigado!
António Paiva eleva-se, assim, ao grupo dos escolhidos pela sua inspiração poética que nos arrebata para um mundo de puro sentido estético, onde a organização das palavras com os sentimentos domina a escrita e nos escraviza pelo poder dos seus textos.
Noémia Maria (Coordenadora da BE)
in O Sabichão
Blogue da Biblioteca da Escola EB 2,3 de Vilarinho do Bairro.
5 de Maio de 2009
Conheci o António quando ele tinha apenas catorze anos. Estou a vê-lo, na sala de aula, irrequieto, vivo, imaginativo e criador. Decorria a década de setenta, tempo de renovação e de conquistas, a maior de todas a Liberdade, e o António era a imagem viva de uma juventude que se esperava ver crescer, nos caminhos de uma vida de sonhos construídos.
António é, neste livro “Navegando nas Palavras”, o mesmo jovem que conheci: sonhador, inconformado e criativo. As palavras sucedem-se simples, transparentes, cheias de sentimentos vividos em cada momento do dia-a-dia. As ideias são transmitidas ora em palavras revoltas, filhas de um mar em tempestade, ora navegando suavemente sobre as águas feitas de infinito.
O cenário, mar e céu, não podia ser melhor escolhido, cada palavra emerge suavemente com sentido e simbolismo num emaranhado perfeito.
Ler este livro é como acompanhar o autor numa longa viagem, sem princípio e sem fim, mas com momentos presentes em cada um. As ideias, feitas de palavras, navegam suavemente, mergulham nos sentidos e emergem das emoções.
Miguel Torga dizia muitas vezes “ Escrever é fácil, criar é que é difícil”, para o António criar é, com as palavras, uma tarefa natural, onde cada emoção surge e nos toca.
O António é um poeta, deixem-no navegar no seu mar de palavras que nos levam mar fora, contestando de revolta em tempestade, ou atracando mansamente em bom porto.
Que o cais da vida faça a ligação entre ele e nós, continuando a deliciar-nos com as palavras…
in Prefácio ao livro “navegando nas palavras”
Outubro de 2007
António é, neste livro “Navegando nas Palavras”, o mesmo jovem que conheci: sonhador, inconformado e criativo. As palavras sucedem-se simples, transparentes, cheias de sentimentos vividos em cada momento do dia-a-dia. As ideias são transmitidas ora em palavras revoltas, filhas de um mar em tempestade, ora navegando suavemente sobre as águas feitas de infinito.
O cenário, mar e céu, não podia ser melhor escolhido, cada palavra emerge suavemente com sentido e simbolismo num emaranhado perfeito.
Ler este livro é como acompanhar o autor numa longa viagem, sem princípio e sem fim, mas com momentos presentes em cada um. As ideias, feitas de palavras, navegam suavemente, mergulham nos sentidos e emergem das emoções.
Miguel Torga dizia muitas vezes “ Escrever é fácil, criar é que é difícil”, para o António criar é, com as palavras, uma tarefa natural, onde cada emoção surge e nos toca.
O António é um poeta, deixem-no navegar no seu mar de palavras que nos levam mar fora, contestando de revolta em tempestade, ou atracando mansamente em bom porto.
Que o cais da vida faça a ligação entre ele e nós, continuando a deliciar-nos com as palavras…
Até sempre
Maria da Conceição Ferreira S. Campos
in Prefácio ao livro “navegando nas palavras”
Outubro de 2007
A razão razoável de um pensamento não cabe numa janela, nem tão pouco na folha de papel em palavras soltas de letras coladas. É, tão-somente, o fragmento de cada um no seu todo quando, ainda que fique o cabelo, o cérebro voa inebriante num mar azul desejado, sentido, consentido, desafiando a vontade.
Juntam-se as sílabas e nascem frases de passados, de presentes e de futuros esperados, em momentos coloridos de poesias mesmo que sem poema.
São momentos, apenas momentos, transcritos, vividos, envelhecidos ou renascidos, imersos em sonhos e realidades, estampados em folhinhas. Nas noites de luar, nos dias chuvosos, à luz do Sol despertam as emoções que um qualquer ser (tu!) faz emergir, vagueando pela vida, compondo, abraçando num pensamento quase vago de tão cheio. E voa. Como pássaro livre, errante sobre o mar, em êxtase, jurando guardar a alma liberta do poeta nas promessas caladas.
Pensamentos do que é, do que somos, na lucidez e na ignorância, rindo e chorando, de olhos postos no longínquo, a ver o mundo na sua imensidão de cor, como um amigo.
É assim que vejo a mente de poeta, umas vezes irónica, outras sem graça, iluminada em batalhas travadas consigo mesma entre o sim e o não, ou assim-assim, que nem inocência de criança entrando em mar revolto. Passa pela vida de estação em estação, ébrio, tresloucado, amando cada descoberta num intenso vazio preenchido de passados guardados, sonhados, ardentes, perdidos nele próprio; trocados com outros, que descuidados, o imortalizam um dia, amando-o na nostalgia da beleza do infinito mar (e sempre o mar), da terra e do ar que respiram, enquanto esfolham páginas de livros.
É um privilégio poder prefaciar uma obra porque nos permite juntar criador e criatura. Eu, que não sou apreciadora de poesia (talvez porque a não saiba sentir para entendê-la) aprendi com o António que basta juntar as letras e vivê-las.
E, porque o prefácio não deve ser mais longo que a obra (risco que não corro pois não tenho engenho para tanto) resta-me congratular que o autor a dedique àqueles que diariamente sobrevivem como páginas gravadas e a todos quantos poisarem seus olhos nos rabiscos deste pálido papel.
Deixo a porta encostada…
in Prefácio ao livro “Janela do Pensamento”
Ana Correia
Maio de 2007
Juntam-se as sílabas e nascem frases de passados, de presentes e de futuros esperados, em momentos coloridos de poesias mesmo que sem poema.
São momentos, apenas momentos, transcritos, vividos, envelhecidos ou renascidos, imersos em sonhos e realidades, estampados em folhinhas. Nas noites de luar, nos dias chuvosos, à luz do Sol despertam as emoções que um qualquer ser (tu!) faz emergir, vagueando pela vida, compondo, abraçando num pensamento quase vago de tão cheio. E voa. Como pássaro livre, errante sobre o mar, em êxtase, jurando guardar a alma liberta do poeta nas promessas caladas.
Pensamentos do que é, do que somos, na lucidez e na ignorância, rindo e chorando, de olhos postos no longínquo, a ver o mundo na sua imensidão de cor, como um amigo.
É assim que vejo a mente de poeta, umas vezes irónica, outras sem graça, iluminada em batalhas travadas consigo mesma entre o sim e o não, ou assim-assim, que nem inocência de criança entrando em mar revolto. Passa pela vida de estação em estação, ébrio, tresloucado, amando cada descoberta num intenso vazio preenchido de passados guardados, sonhados, ardentes, perdidos nele próprio; trocados com outros, que descuidados, o imortalizam um dia, amando-o na nostalgia da beleza do infinito mar (e sempre o mar), da terra e do ar que respiram, enquanto esfolham páginas de livros.
É um privilégio poder prefaciar uma obra porque nos permite juntar criador e criatura. Eu, que não sou apreciadora de poesia (talvez porque a não saiba sentir para entendê-la) aprendi com o António que basta juntar as letras e vivê-las.
E, porque o prefácio não deve ser mais longo que a obra (risco que não corro pois não tenho engenho para tanto) resta-me congratular que o autor a dedique àqueles que diariamente sobrevivem como páginas gravadas e a todos quantos poisarem seus olhos nos rabiscos deste pálido papel.
Deixo a porta encostada…
in Prefácio ao livro “Janela do Pensamento”
Ana Correia
Maio de 2007
Onda de Leitura, RDP Madeira, Antena 1
de 9 a 15 de Outubro de 2006
juntando as letras, de António Paiva
Há alguns anos, discutia-se poesia nos bares do Funchal. Falava-se dos poetas malditos e dos surrealistas, principalmente. O livro de José Agostinho Baptista Jeremias, o Louco também fala dessa cidade e desses lugares. Recordamos então um amigo, que afirmou que só quem ainda não encontrara qualquer coisa parecida com a felicidade se poderia dedicar a escrever poesia. Pasmámos, porque ele ainda era jovem e até já publicara alguns poemas de qualidade. Tão jovem e já tão assim satisfeito e tão sentado? E lembrámo-nos de um dístico, quase epígrafe: “E se fôssemos felizes, que desejaríamos então?”Estes pensamentos são-nos inspirados pela leitura de um livro de poesia intitulado juntando letras, de António Paiva, que achou por bem lançar a sua obra na livraria que apoia a “Onda de leitura” onde nos banhamos. Como disse alguém a quem mostrámos o livro, e que não teve muito tempo para o consultar, esta escrita tem o seu quê de “naif”, que entendemos como um misto de ingenuidade e singeleza, e que está de acordo com a tonalidade dos poemas, como se verifica logo no início da obra: “queria dizer-te coisas, contar-te segredos, não sabia como o fazer, então fechei-me aqui sozinho, juntando letra atrás de letra, pensando que me escutavas…”. Este livro é sobretudo comunicação - de alguém que procura abrir portas, as suas e as de quem quer tocar com o seu amor. Essa comunicação é, por isso, um processo de conhecimento de si e dos outros, como acontece com as letras, ou mais propriamente, com a linguagem.
O conhecimento do Outro e o auto-conhecimento vai-se realizando à medida em que os seres humanos vão aprendendo a linguagem verbal. Com as palavras, o autor busca o amor, procura a pessoa amada na tentativa de se encontrar consigo próprio.
Exemplifiquemos com o poema “alma agreste”:
empresta-me os teus olhos
quero ver-me
empresta-me os teus ouvidos
quero escutar-me
empresta-me o teu coração
quero sentir-me
empresta-me a tua dor
quero o castigo
fala-me de mim sem rodeios
tu sabes
vivo dentro de mim punho cerrado
ostra gélida de temor
toca-me no ponto incerto
alma agreste e errante
algures na madrugada mão aberta
No poema intitulado “da poesia”, o poeta reflecte sobre a sua própria arte, dizendo que “escrever poesia não é ser poeta/ juntar sentimentos é aprender/ juntar letras é escrever a alma…”. Define, enfim, a sua poesia como uma expressão de sentimentos, posicionando-se numa perspectiva quase romântica, ou pelo menos pré-modernista, como dando razão ao nosso amigo que defendia a ideia de que só se dava a escrever poesia quem não se sentia satisfeito e se dava ao culto das lamentações ou à demanda dos sonhos.
Mas é aqui que nos encontramos com António Paiva: julgamos que a grandeza do homem está na busca permanente, na insubmissão ao fado, na procura do mais-além. O território do homem livre, tal como o do poeta, é a liberdade. Por isso há aqueles que procuram abrir as portas, as dos outros e as suas, mesmo que não sejam poetas, ou seja:
pausa
deixem-me ainda que ingenuamente
acreditar na utopia
agora que tenho tempo.
Depois podem fazer ruído
recuperei algum equilíbrio
é só um instante já vou abrir
de 9 a 15 de Outubro de 2006
juntando as letras, de António Paiva
Há alguns anos, discutia-se poesia nos bares do Funchal. Falava-se dos poetas malditos e dos surrealistas, principalmente. O livro de José Agostinho Baptista Jeremias, o Louco também fala dessa cidade e desses lugares. Recordamos então um amigo, que afirmou que só quem ainda não encontrara qualquer coisa parecida com a felicidade se poderia dedicar a escrever poesia. Pasmámos, porque ele ainda era jovem e até já publicara alguns poemas de qualidade. Tão jovem e já tão assim satisfeito e tão sentado? E lembrámo-nos de um dístico, quase epígrafe: “E se fôssemos felizes, que desejaríamos então?”Estes pensamentos são-nos inspirados pela leitura de um livro de poesia intitulado juntando letras, de António Paiva, que achou por bem lançar a sua obra na livraria que apoia a “Onda de leitura” onde nos banhamos. Como disse alguém a quem mostrámos o livro, e que não teve muito tempo para o consultar, esta escrita tem o seu quê de “naif”, que entendemos como um misto de ingenuidade e singeleza, e que está de acordo com a tonalidade dos poemas, como se verifica logo no início da obra: “queria dizer-te coisas, contar-te segredos, não sabia como o fazer, então fechei-me aqui sozinho, juntando letra atrás de letra, pensando que me escutavas…”. Este livro é sobretudo comunicação - de alguém que procura abrir portas, as suas e as de quem quer tocar com o seu amor. Essa comunicação é, por isso, um processo de conhecimento de si e dos outros, como acontece com as letras, ou mais propriamente, com a linguagem.
O conhecimento do Outro e o auto-conhecimento vai-se realizando à medida em que os seres humanos vão aprendendo a linguagem verbal. Com as palavras, o autor busca o amor, procura a pessoa amada na tentativa de se encontrar consigo próprio.
Exemplifiquemos com o poema “alma agreste”:
empresta-me os teus olhos
quero ver-me
empresta-me os teus ouvidos
quero escutar-me
empresta-me o teu coração
quero sentir-me
empresta-me a tua dor
quero o castigo
fala-me de mim sem rodeios
tu sabes
vivo dentro de mim punho cerrado
ostra gélida de temor
toca-me no ponto incerto
alma agreste e errante
algures na madrugada mão aberta
No poema intitulado “da poesia”, o poeta reflecte sobre a sua própria arte, dizendo que “escrever poesia não é ser poeta/ juntar sentimentos é aprender/ juntar letras é escrever a alma…”. Define, enfim, a sua poesia como uma expressão de sentimentos, posicionando-se numa perspectiva quase romântica, ou pelo menos pré-modernista, como dando razão ao nosso amigo que defendia a ideia de que só se dava a escrever poesia quem não se sentia satisfeito e se dava ao culto das lamentações ou à demanda dos sonhos.
Mas é aqui que nos encontramos com António Paiva: julgamos que a grandeza do homem está na busca permanente, na insubmissão ao fado, na procura do mais-além. O território do homem livre, tal como o do poeta, é a liberdade. Por isso há aqueles que procuram abrir as portas, as dos outros e as suas, mesmo que não sejam poetas, ou seja:
pausa
deixem-me ainda que ingenuamente
acreditar na utopia
agora que tenho tempo.
Depois podem fazer ruído
recuperei algum equilíbrio
é só um instante já vou abrir




